quarta-feira, 4 de junho de 2008

Coluna

Atraindo a desgraça
A hora da refeição era uma hora sagrada
O que era meu horário favorito agora é o que eu mais quero distância. Apesar de lutar, ainda conservo os mais péssimos hábitos do cidadão brasileiro como por exemplo o hábito inocente de comer em frente a televisão.
Geralmente composto de arroz, feijão, zóião e salada de alface meu almoço nesses últimos tempos tem ganhado um novo igrediente: Sangue.
É inegavél o sucesso dos programas policiais nas tvs regionais. Com excessão da TV Cataratas, a blood mania já está naTarobá, RIC e fez da Tv Naipi seu QG regidos pelos caras mais toscos de Foz do Iguaçu e região. Os palhaços apresentam os animais...
Ação!
Aos prantos a mão chora porque o filho drogado, ladrão, traficante está estendido no chão cravado de balas. De repente ela se joga na poça de sangue, segura o cadáver no colo e pergunta pra Deus o porque do acontecido: Deus responde: "É porque ele não pagou o bagulho!"
Então surge a vizinha, as amigas os filhos e a retira do lugar antes do incansável IML cumprir com mais um acontecido o mais rápido possível pois, sabe que outra chamada em pouco tempo é inevitável. Tudo isso aos olhares de crianças menores de dez anos que no fundo riem e dão tchauzinho pra câmera se acostumando com a praga que as tvs, na falta de criatividade e consciência, ajuda a disseminar.
O IBOPE aponta:
Com um público que além de crianças inclui a grande massa ignorante, ou seja, a maioria da população da cidade, essas tvs descobriram que desgraça rende e anuanciantes não faltam: papelaria, clinicas odontológicas, mercados, empresas de seguro de vida, lojas de calçados e às vezes, até mesmo, o governo aproveita de sua própria incompetêcia para se sobressair.
Cardápio de amanhã
Sendo a cidade onde mais morre jovens no Brasil, é provável que o cardápio da cidade não vai mudar. A tv sabe disso e alegando prestar contas à sociedade distribui caderas de rodas, óculos e mais mortes. O problema não é "informar". A questão é como essa "informação" é dada. Não há nada mais desumano que corpos de jovens, seja eles o que forem, jogados e expostos como cardápio para a teleaudiência que se deleita numa auto afirmação de sua incapacidade de mudar o meio em que vive. Entre buffets, a la cartes e marmitas as tevezinhas regionais nos mostram dia-a-dia o sabor azedo de nossa humanidade.
Celso B. é colunista de Culinária